Quarta-feira, Maio 28, 2003
XIV
When I consider every thing that grows
Holds in perfection but a little moment,
That this huge stage presenteth nought but shows
Whereon the stars in secret influence comment;
When I perceive that men as plants increase,
Cheered and checked even by the self-same sky,
Vaunt in their youthful sap, at height decrease,
And wear their brave state out of memory;
Then the conceit of this inconstant stay
Sets you most rich in youth before my sight,
Where wasteful Time debateth with decay
To change your day of youth to sullied night,
And all in war with Time for love of you,
As he takes from you, I engraft you new.
Quando penso que tudo quanto cresce
na perfeição só breve instante avulta,
que ao vasto palco só de cenas desce
lá das estrelas a influência oculta;
se vejo homens e plantas como anima
e desanima o céu e em tal pujança,
à seiva jovem, urna vez em cima,
cai o esplendor bem longe da lembrança;
a ideia então desta inconstante estada
deixa-me ver-te em glória juvenil,
e lutam tempo e queda a qual degrada
teu jovem dia numa noite vil.
Co tempo cm guerra por amor de ti,
quanto te roube eu to enxerto aqui.
(trad. Vasco Graça Moura)
Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;
se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;
então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.
Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que ele te rouba, eu te reponho aqui.
(trad. Jorge de Sena)
William Shakespeare (1564 – 1616)
CCCIII
Amor, che meco a buon tempo ti stavi
tra queste rive, a’ pensier nostri amiche,
e per saldar le ragion nostre antiche
meco e col fiume ragionando andavi
fior, frondi, erbe, ombre, antri, onde, aure soavi,
valli chiuse, alti colli e piagge apriche,
porto de l’amorose mie fatiche,
de le fortune mie tante, e sí gravi;
o vaghi abitator de’ verdi boschi,
o ninfe, e voi che ’l fresco erboso fondo
del liquido cristallo alberga e pasce;
i dí miei fûr sí chiari, or son sí foschi,
come Morte che ’l fa. Cosí nel mondo
sua ventura ha ciascun dal dí che nasce
Amor, comigo noutro tempo estavas
Entre estas margens do pensar amigas
E p'ra saldar nossas razões antigas
Comigo e o rio arrazoando andavas:
Flor's, frondes, sombras, ondas, antros, cavas,
Profundos vales, altos montes, sigas,
Que repouso me foram das fadigas
E hoje o não são de tantas mágoas bravas.
Ó vós que os ermos habitais do bosco,
ó ninfas, e quem mais do fresco fundo
Do líquido cristal se alberga e pasce:
Tão claro foi meu dia, ora é tão fosco
Como a Morte que o faz. Assim no mundo
Ventura vem do dia em que se nasce.
Petrarca (1304-1374)
(trad. Jorge de Sena)
No tempo que de Amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse num só fogo, não queria
O Céu, porque tivesse exprimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co peso descansou,
Por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu tão cansado sofrimento!
Camões (1525-1580)
Terça-feira, Maio 27, 2003
NATAL
Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Fernando Pessoa
Entreme donde no supe
y quedéme no sabiendo
toda ciencia trascendiendo.
Yo no supe dónde entraba
pero cuando allí me vi
sin saber dónde me estaba
grandes cosas entendí
no diré lo que sentí
que me quedé no sabiendo
toda ciencia trascendiendo.
De paz y de piedad
era la ciencia perfecta,
en profunda soledad
entendida vía recta
era cosa tan secreta
que me quedé balbuciendo
toda ciencia trascendiendo.
Estaba tan embebido
tan absorto y ajenado
que se quedó mi sentido
de todo sentir privado
y el espíritu dotado
de un entender no entendiendo
toda ciencia trascendiendo.
El que allí llega de vero
de sí mismo desfallece
cuanto sabía primero
mucho bajo le parece
y su ciencia tanto crece
que se queda no sabiendo,
toda ciencia trascendiendo.
Cuanto más alto se sube
tanto menos se entendía
que es la tenebrosa nube
que a la noche esclarecía
por eso quien la sabía
queda siempre no sabiendo,
toda ciencia trascendiendo.
Este saber no sabiendo
es de tan alto poder
que los sabios arguyendo
jamás le pueden vencer
que no llega su saber
a no entender entendiendo
toda ciencia trascendiendo.
Y es de tan alta excelencia
aqueste sumo saber
que no hay facultad ni ciencia
que le puedan emprender
quien se supiere vencer
con un no saber sabiendo,
toda ciencia trascendiendo.
Y si lo queréis oír
consiste esta suma ciencia
en un subido sentir
de la divinal esencia
es obra de su clemencia
hacer quedar no entendiendo
toda ciencia trascendiendo.
Entrei-me adonde não soube
e quedei-me não sabendo,
toda ciência transcendendo.
Eu não sabia onde entrava,
porém, quando ali me vi,
sem saber adonde entrava,
grandes coisas entendi:
não direi o que senti,
que mo quedei não sabendo,
toda ciência transcendendo.
De paz e de piedade
era a ciência perfeita,
em profunda soledade,
entendida a via recta:
era coisa tão secreta,
a fala subvertendo,
toda ciência transcendendo.
Estava tão embebido,
tão absorto e tão alheado,
que se quedou meu sentido
de todo o sentir privado:
e o espírito dotado
de entender não entendendo,
toda ciência transcendendo.
Que ali chega verdadeiro
de si mesmo desfalece:
quanto sabia primeiro
muito baixo lhe parece:
sua ciência tanto crece
que se queda não sabendo
toda ciência transcendendo.
Quanto mais alto se ascende,
tanto menos entendia
que negra nuvem se acende
que as trevas esclarecia:
por isso quem a sabia
queda sempre não sabendo
toda ciência transcendendo.
Este saber não sabendo
é de tão alto poder,
que os mais sábios revolvendo
jamais o podem vencer:
pois não chega o seu saber
a no' entender entendendo,
toda ciência transcendendo.
E é de tão alta excelência
este mais sumo saber
que faculdade ou ciência
não há para o compreender:
quem a si souber vencer
com um não saber sabendo,
irá sempre transcendendo.
E, se quiserdes ouvir,
consiste a suma ciência
em num subido sentir
da só divinal Essência:
obra é de sua clemência
o quedar não entendendo,
toda ciência transcendendo.
S. João da Cruz (1542-1591)
(trad. Jorge de Sena)
Segunda-feira, Maio 26, 2003
A Koré
Alta e solene mais alta do que a luz
A pesada palidez sagrada do Pártenon
Reina sobre o dia
Folhagens dançam movidas pelo vento
Na mesa ao lado a Koré de nariz direito a cabelo entrançado
Serve de intérprete e erguendo a sua taça
Brinda com os comerciantes tedescos que saquearam
A Grécia e a Europa quase toda
Mas que após a derrota de seus generais
Ganharam a guerra
O café tem pó - relíquia dos turcos
Porém no vinho resinado no frescor da vinha
Na fina suave brisa nas pálidas colunas
Algo dos deuses súbito visita
A luz do instante
Sophia de Mello Breyner Andresen
Algum Saio se ufana agora com o meu escudo, arma excelente.
que deixei ficar, bem contra a vontade, num matagal.
Mas salvei a vida. Que me importa aquele escudo?
Deixá-lo! Hei-de comprar outro que não seja pior.
(frag. 6)
Não gosto de um general alto, nem de pernas bem abertas,
nem orgulhoso com os anéis do seu cabelo, nem barbeado.
Para mim, quero um que seja pequeno e de pernas tortas,
que mexa os pés com firmeza, e cheio de coragem.
(frg. 60 Diehl)
Arquíloco (séc. VII a.C.)
(trad. Maria Helena da Rocha Pereira)
Volta-te volta-te Sulamita volta-te volta-te que te vejamos
que vereis na Sulamita quando baila entre dois coros?
quão formosos são teus pés nas sandálias filha de príncipe
as curvas dos teus quadris parecem colares obra das mãos de um artista
teu umbigo uma taça redonda que o vinho nunca falte
teu ventre monte de trigo cercado de lírios
teus seios dois filhotes gémeos de gazela
teu pescoço uma torre de marfim
teus olhos as piscinas de Hesbon junto às portas de Bat-Rabim
teu nariz como a torre do Líbano voltada para Damasco
levanta-se tua cabeça como o Carmelo e teus cabelos cor de púrpura
um rei trazem cativo dos seus laços
como és bela como és desejável amor em delícias
semelhante à palmeira é o teu porte cachos de uvas são teus seios
Pensei vou subir à palmeira vou colher dos seus frutos
sejam teus seios cachos de uvas
o hálito da tua boca perfume de maçãs
tua boca guarda o melhor vinho que na minha se derrama
molhando-me lábios e dentes
Eu pertenço a meu amado seu desejo o impele para mim.
Vem meu amado corramos ao campo passemos a noite sob os cedros
madruguemos pelos vinhedos
vejamos se as vides rebentam
abrem seus botões
se já brotam os cachos
lá te darei as minhas carícias
as mandrágoras exalam o seu perfume à nossa porta há toda a sorte de frutos
frutos novos frutos secos que eu tinha guardado meu amado para ti.
Cântico dos Cânticos de Salomão VII
(trad. José Tolentino de Mendonça)
An Schwager Kronos
Spude dich, Kronos!
Fort den rasseinden Trott!
Bergab gleitet der Weg:
Ekies Schwindeln zõgerl
Mir vor die Stirne dein Zaudern.
Frisch, holpert es gleich,
Über Stock und Steine den Trott
Rasch ins Leben hinein!
Nun schon wieder
Den eratmenden Schritt
Mühsam Berg hinauf!
Auf dena! nicht träge denn!
Strebend uad hoffend hinan!
Weit. hoch, herrlich der Buck
Rings ins Leben hinein!
Vom Gebirg zum Gebirg
Schwebet der ewige Geist,
Ewigen Lebens ahndevolk
Seitwãrts des Überdachs Schatten
Zieht dich an
Und em Fiischung verheìssender Buck
Auf der Schwelle des Mãdchens da.
Labe dich!- Mir auch, Mädchen,
Diesen schãumenden Trank,
Diesen frisehen Gesundheitsblick!
Ab denn! rascher hinab!
Sieh, die Sonne sinkt!
Eh sie sinkt, eh mich Greisen
Errreift im Moore Nehelduft,
Entzahnte Kiefer schnattern
Und das schlotternde Gebein:
Trunknen vom letzten Strahi
ReIss mich, em Feuermeer
Mir im schäumenden Aug.
Mich Geblendeten, Taumeinden
In der Hölle nãchiliches Tor!
Töne, Schwager, ins Horn,
Rassle den schallerAden Trab,
Dass der Orkus vernehme: wir kommen!
Dass gleich an der Türe
Der Wirt uns freundlich empfange!
A Cronos Auriga
Apressa-te, Cronos!
Siga o trote estrepitoso!
A estrada resvala monte abaixo;
Náuseas de vertigem me afrontam
Os olhos c’os teus vagares.
Eia! Haja solavancos,
Que importa? - Por trancos e barrancos.
Veloz vida dentro!
E já outra vez
O passo ofegante
Cansado encosta acima!
Eia, pois! nada de preguiças!
Com ânimo e esperança pra o cimo!
Largo, alto, magnífico o olhar
Em volta vida dentro!
De montanha a montanha
Paira o eterno Espírito,
Pressago de eterna vida.
Ao lado a sombra do alpendre
Atrai-te,
E um olhar, que promete refrigério,
Da moça acolá à porta.
Regala-te! - «A mim também, moça.
Dessa bebida espumante.
E esse olhar fresco e sadio!»
Pra baixo agora! mais depressa!
Olha, o sol já desce!
Antes que desça, antes que, velho.
Me agarre a névoa do pântano,
As queixadas sem dentes chocalhem
E a ossada trémula:
Bêbado do último raio
Leva-me, um mar de fogo
Inda nos olhos espumantes.
Leva-me cambaleante e deslumbrado
Às portas nocturnas do Inferno!
Toca, cocheiro, a corneta,
Faz rugir o trote ecoante,
Que o Orco saiba: chegamos!
Pra que logo à porta
O dono da casa afável nos receba!
J. W. Goethe (1749-1832)
(trad. Paulo Quintela)
Domingo, Maio 25, 2003
É belo para um homem valente morrer, caindo
nas primeiras filas, a combater pela pátria.
E, de tudo, o mais triste é abandonar a cidade
e os campos férteis, para ir mendigar,
vagueando com a mãe querida e o idoso pai,
os filhos pequeninos e a legítima esposa.
Será odioso àquele a quem se dirigir,
cedendo à necessidade e à penúria horrenda,
envergonha a sua estirpe, deturpa a bela figura,
acompanham-no a desonra e a infâmia.
Se, pois. não há para o vagabundo cuidado algum,
nem respeito pela sua linhagem.
lutemos com ardor por esta terra, morramos
por nossos filhos, sem pouparmos a vida.
Ó jovens, permanecei em combate ao lado uns dos outros,
não comeceis com a fuga vergonhosa ou com o medo.
Mas criai no vosso espírito um ânimo excelso e valente,
deixai o amor à vida, ao combater com os homens.
Não fujais, abandonando os mais velhos, que já não têm
os joelhos prontos, os pobres anciãos.
É vergonha que caia nas primeiras filas
e fique estendido um homem mais velho,
já de cabeça branca e barba grisalha,
exalando o espírito valente no pó,
segurando nas mãos as partes ensanguentadas
- coisa vergonhosa e ímpia de se ver –
e o corpo nu. Aos jovens tudo fica bem,
enquanto estão na flor esplendorosa da amável juventude.
Quando vivo, admiram-no os homens, amam-no
as mulheres; e é belo, se cai nas primeiras filas.
Fique cada um em seu posto, de pernas bem abertas,
os pés ambos fincados no solo, mordendo o lábio com os dentes.
Tirteu (Esparta, Séc. VII a.C.)
(trad. Maria Helena da Rocha Pereira)
From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty's rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou contracted to thine own bright eyes,
Feed'st thy light's flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thy self thy foe, to thy sweet self too cruel:
Thou that art now the world's fresh ornament,
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content,
And, tender churl, mak'st waste in niggarding:
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world's due, by the grave and thee.
Quer-se prole às mais belas criaturas
pra que não morra a rosa da beleza
e em fenecendo as coisas já maduras
um terno herdeiro as lembre. Mas acesa,
contrai-te luz do teu olhar, consomes
teu ser no ser das tuas próprias chamas
e onde há abundância crias fomes,
cru teu inimigo de ti, teu ser desamas:
tu que no mundo és fresco ornamento
que a gaia Primavera arauto fez,
em teu botão te enterras a contento
e terno avaro esbanjas mesquinhez:
Apieda-te do mundo, ou sê glutão.
Comas tu o devido, a cova não.
William Shakespeare (1564 – 1616)
(trad. Vasco Graça Moura)
O nauis, referent in mare te noui
fluctus. O quid agis? Fortiter occupa
portum. Nonne uides ut
nudum remigio latus,
et malus celeri saucius Africo
antemnaque gemant ac sine funibus
uix durare carinae
possint imperiosius
aequor? Non tibi sunt integra lintea,
non di, quos iterum pressa uoces malo.
Quamuis Pontica pinus,
siluae filia nobilis,
iactes et genus et nomen inutile:
nil pictis timidus nauita puppibus
fidit. Tu, nisi uentis
debes ludibrium, caue.
Nuper sollicitum quae mihi taedium,
nunc desiderium curaque non leuis,
interfusa nitentis
uites aequora Cycladas.
Ó pobre navio, novas vagas te irão arrastar ainda
para o mar ! Que fazes? Regressa corajosamente
ao porto. Não vês que o teu flanco está sem remos,
que o mastro está ferido pelo Africo tempestuoso
e as antenas gemem, e que, sem amarras, a quilha
dificilmente pode suportar um mar agora mais impetuoso?
Já não tens inteiras as velas, já não tens inteiros os deuses,
que possas invocar de novo no meio de perigo.
Ainda que tenhas sido um pinheiro do Ponto, filho de uma nobre floresta,
ainda que te vanglories da tua nobreza e do teu nome inúteis,
o marinheiro, agora receoso, já não confia na tua popa pintada.
Se não queres tornar-te joguete dos ventos, toma cuidado;
tu, que, tendo sido até ainda há pouco motivo de inquietante
preocupação para mim, te tornaste agora no meu anseio
e no meu mais sério cuidado, evita o mar perigoso das brilhantes Cíclades.
Horácio (séc. I a.C.) (Ode XIV, Lib. I)
(trad. Ema Barcelos)
Ao PASSAR junto da vide
Ela arrebatou-me o manto,
E logo lhe perguntei:
Porque me detestas tanto?
Ao que ela me respondeu:
Porque é que passas, ó rei,
Sem me dares saudação,
Não basta beberes-me o sangue
Que te aquece o coração?
Al-Mu’tamid (1040-1041)
(trad. Adalberto Alves)
Sábado, Maio 24, 2003
A UMA AUSÊNCIA
Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado:
Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:
Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;
Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.
António Barbosa Bacelar
The Tyger
Tyger! Tyger! burning bright
in the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dead grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water'd heaved with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
William Blake (1757-1827)
O TIGRE
Tigre, tigre, ardendo aceso.
No bosque da noite preso.
Que olhos, que mãos infalíveis
Teus traços criaram terríveis?
De que profundas ou céus,
O lume dos olhos teus?
De que asas el’sonha audaz?
Esse fogo, quem o traz?
Qual arte os nervos te cria
Que ao coração te daria?
Quando a bater começou.
Que pé ou mão foi que ousou?
Que martelo, que bigorna.
A teu cérebro deu forma?
Que fornalha ou força tal,
Para o seu terror mortal?
E os astros lanças largaram,
De seu choro o céu molharam.
Sorriu ele dessa vez?
Quem fez o Anho te fez?
Tigre, tigre, ardendo aceso.
Nos bosques da noite preso.
Que olhos, que mãos infalíveis
Teus traços criaram terríveis?
(trad. Jorge de Sena)
O TIGRE
Tigre, Tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?
Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas ousou ele o Vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?
Que arte e braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?
Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-lhe os horrores mortais?
Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?
Tigre, Tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou imortal mão ousaria
Traçar-te a horrível simetria?
(trad. José Paulo Paes)
Alegria Custosa
Enfim que aquela hora é já chegada,
Que até nos passos traz preço e ventura,
Tão merecida de uma fé tão Pura,
E de um tão limpo amor tão esperada.
Ela tardou em vir, como rogada
Da viva saudade, que ainda dura.
Ora bem pode vir, e estar segura,
Que há de ser possuída a desejada.
Senhora, se com lágrimas convinha
sentir somente o mal, e agora o canto,
É digno de outra glória verdadeira;
Não cuideis que é fraqueza da alma minha,
Mas que, de costumada sempre ao pranto,
Não sabe festejar de outra maneira.
D. Francisco Manuel de Melo
Leandro em noite escura ia rompendo
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;
E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.
"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.
"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".
Diogo Bernardes
Desarrezoado amor, dentro com meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz, desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; em fim, vem o seu dia:
Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata traições, que não confia nem
nos seus. Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Variantes:
1: Amor bravo e rezão dentro em meu peito; 2: Têm guerra desigual…; 3: I já de muito tempo, manda e faz; 4: …a torto ou a direito.; 5: Não espera rezão…; 6: …faz e desfaz; 7: …nunca está em paz; 8: …cuidais que sim…; 10: aqueles, quando traz de tarde em tarde; 11: força de sem rezão e milhor dia; 12: Não tem Amor lugar certo onde aguarde; 13: Antão trata traições nesta agonia; 14: Triste,…
Somos como as folhas das árvores...
Quais folhas criadas pela estação florida da primavera,
quando de súbido crescem sob os raios do sol,
assim somos nós: por um tempo de nada, nos deleita
a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm
dos deuses. Ao lado estão as Keres tenebrosas,
uma. detentora da velhice medonha,
a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude
- o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra.
E depois, logo que chega o fim da estação.
melhor é morrer logo do que viver,
pois são muitos os males que surgem no nosso coração: ora é a casa
que cai em ruína, a os efeitos dolorosos da pobreza;
outro não tem filhos, e, sentindo a sua falta.
desce ao Hades. debaixo da terra;
outro tem doença que lhe destrói a vida. Não há homem
a quem Zeus não dê muitos infortúnios.
Mimnermo (séc.VII a.C.)
(Trad. Maria Helena da Rocha Pereira)
Quais folhas criadas pela estação florida da primavera,
quando de súbido crescem sob os raios do sol,
assim somos nós: por um tempo de nada, nos deleita
a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm
dos deuses. Ao lado estão as Keres tenebrosas,
uma. detentora da velhice medonha,
a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude
- o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra.
E depois, logo que chega o fim da estação.
melhor é morrer logo do que viver,
pois são muitos os males que surgem no nosso coração: ora é a casa
que cai em ruína, a os efeitos dolorosos da pobreza;
outro não tem filhos, e, sentindo a sua falta.
desce ao Hades. debaixo da terra;
outro tem doença que lhe destrói a vida. Não há homem
a quem Zeus não dê muitos infortúnios.
Mimnermo (séc.VII a.C.)
(Trad. Maria Helena da Rocha Pereira)