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quinta-feira, junho 19, 2003

Diffugere nives, redeunt iam gramina campis
arboribusque comae;
mutat terra vices, et decrescentia ripas
flumina praetereunt.

Gratia cum Nymphis geminisque sororibus audet
ducere nuda choros.
inmortalia ne speres, monet annus et almum
quae rapit hora diem.

frigora mitescunt Zephyris, ver proterit aestas,
interitura, simul
pomifer autumnus fruges effuderit, et mox
bruma recurrit iners.

damna tamen celeres reparant caelestia lunae:
nos ubi decidimus
quo pius Aeneas, quo dives Tullus et Ancus,
pulvis et umbra sumus.

quis scit an adiciant hodiernae crastina summae
tempora di superi?
cuncta manus avidas fugient heredis, amico
quae dederis animo.

cum semel occideris et de te splendida Minos
fecerit arbitria,
non, Torquate, genus, non te facundia, non te
restituet pietas.

infernis neque enim tenebris Diana pudicum
liberat Hippolytum
nec Lethaea valet Theseus abrumpere caro
vincula Pirithoo.


Horácio, Carmina, IV, 7




Fogem as neves frias
dos altos montes, quando reverdecem
as árvores sombrias;
as verdes ervas crecem,
e o prado ameno de mil cores tecem.

Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira
e Filomela chora;
o Céu da fresca terra se enamora.

Vai Vénus Citereia
com os coros das Ninfas rodeada;
a linda Panopeia,
despida e delicada,
com as duas irmãs acompanhada.

Enquanto as oficinas
dos Ciclopes Vulcano esta queimando,
vão colhendo boninas
as Ninfas e cantando,
a terra co ligeiro pé tocando.

Dece do duro monte
Diana, já cansada d'espessura,
buscando a clara fonte
onde, por sorte dura,
perdeu Actéon a natural figura.

Assi se vai passando
a verde Primavera e seco Estio;
trás ele vem chegando
depois o Inverno frio,
que também passará por certo fio.

Ir-se-á embranquecendo
com a frígida neve o seco monte;
e Júpiter, chovendo,
turbará a clara fonte;
temerá o marinheiro a Orionte.

Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o tempo ter firmeza em nada;
e nossa vida escassa
foge tão apressada
que, quando se começa, é acabada.

Que foram dos Troianos
Hector temido, Eneias piadoso?
Consumiram-te os anos,
Ó Cresso tão famoso,
sem te valer teu ouro precioso.

Todo o contentamento
crias que estava no tesouro ufano?
Ó falso pensamento
que, à custa de teu dano,
do douto Sólon creste o desengano!

O bem que aqui se alcança
não dura, por possante, nem por forte;
que a bem-aventurança
durável de outra sorte
se há-de alcançar, na vida, para a morte.

Porque, enfim, nada basta
contra o terrível fim da noite eterna;
nem pode a deusa casta
tornar à luz superna
Hipólito, da escura noite averna.

Nem Teseu esforçado,
com manha nem com força rigorosa,
livrar pode o ousado
Pirítoo da espantosa
prisão leteia, escura e tenebrosa.

Camões



The snow dissolv'd no more is seen,
The fields, and woods, behold, are green,
The changing year renews the plain,
The rivers know their banks again,
The sprightly Nymph and naked Grace
The mazy dance together trace.
The changing year's successive plan,
Proclaims mortality to Man.
Rough Winter's blasts to Spring give way,
Spring yields to Summer's sovereign ray,
Then Summer sinks in Autumns's reign,
And Winter chills the world again.
Her losses soon the Moon supplies,
But wretched Man, when once he lies
Where Priam and his sons are laid,
Is nought but Ashes and a Shade.
Who knows if Jove who counts our Score
Will toss us in a morning more?
What with your friend you nobly share
At least you rescue from your heir.
Not you, Torquatus, boast of Rome,
When Minos once has fix'd your doom,
Or Eloquence, or splendid birth,
Or Virtue shall replace on earth.
Hippolytus unjustly slain
Diana calls to life in vain,
Nor can the might of Theseus rend
The chains of hell that hold his friend.


Samuel Johnson




The snows are fled away, leaves on the shaws
And grasses in the mead renew their birth,
The river to the river-bed withdraws,
And altered is the fashion of the earth.

The Nymphs and Graces three put off their fear
And unapparelled in the woodland play.
The swift hour and the brief prime of the year
Say to the soul, Thou wast not born for aye.

Thaw follows frost; hard on the heel of spring
Treads summer sure to die, for hard on hers
Comes autumn with his apples scattering;
Then back to wintertide, when nothing stirs.

But oh, whate'er the sky-led seasons mar,
Moon upon moon rebuilds it with her beams;
Come we where Tullus and where Ancus are
And good Aeneas, we are dust and dreams.

Torquatus, if the gods in heaven shall add
The morrow to the day, what tongue has told?
Feast then thy heart, for what thy heart has had
The fingers of no heir will ever hold.

When thou descendest once the shades among,
The stern assize and equal judgment o'er,
Not thy long lineage nor thy golden tongue,
No, nor thy righteousness, shall friend thee more.

Night holds Hippolytus the pure of stain,
Diana steads him nothing, he must stay;
And Theseus leaves Pirithous in the chain
The love of comrades cannot take away.


A.H. Housman





Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.


Ricardo Reis



quarta-feira, junho 18, 2003

Luciano, Uma História Verídica
(sec. I d.C.)

(trad. Custódio Magueijo)


LIVRO I



Assim como os atletas e, dum modo geral, os que se ocupam da preparação física, não curam exclusivamente da sua boa forma e dos exercícios, mas igualmente do repouso feito a tempo (o qual, aliás, consideram uma parte importantíssima do treino), assim também me convenço de que os intelectuais, após um longo período de leituras sérias, têm toda a vantagem em relaxar o espírito, tornando-o, desse modo, mais forte para o trabalho futuro.

Ora, o próprio repouso poderia até tornar-se-lhes agradável, se porventura se entregassem a um género de leitura que, além de proporcionar um entretenimento simples, como é o que resulta duma temática jocosa e divertida, suscitasse também alguns motivos de reflexão que não desconvém às musas — algo parecido, suponho, com o que porventura sentirão ao lerem esta minha obra. Efectivamente, o que nela os seduzirá reside não apenas na estranheza do tema, ou na minha intenção de divertir, ou no facto de ter inventado mentiras variadas que têm todo o ar de verosimilhança e de verdade, mas igualmente na circunstância de, à laia de paródia, cada passo da narrativa fazer alusão a certos poetas, prosadores e filósofos, que nos deixaram obras fantásticas e cheias de imaginação — autores esses cujos nomes eu explicitaria, se a simples leitura não bastasse para que tu próprio os identificasses.

[A título de exemplo:] Ctésias de Cnido, filho de Ctesioco, escreveu, a respeito da Índia e das suas curiosidades, coisas que nem ele próprio testemunhara, nem ao menos tinha ouvido da boca de pessoa fidedigna. Também Iambulo escreveu muita coisa maravilhosa sobre o grande mar [do sul], com o que fabricou uma mentira que não engana ninguém; mas a história que ele conta nem por isso é menos divertida. E muitos outros deram a sua preferência a temas do mesmo género, escrevendo sobre peregrinações e viagens que pretensamente teriam realizado e contando histórias de animais gigantescos e de povos selvagens com os seus estranhos costumes. Mas quem lhes serviu de guia e mestre neste tipo de charlatanice foi o Ulisses de Homero, o qual, na corte de Alcinoo, contou histórias de ventos aprisionados, de seres com um só olho, de canibais e de povos selvagens, enfim, de animais de muitas cabeças e da metamorfose dos seus companheiros por acção de drogas — tudo patranhas que ele impingiu aos parvos dos Feaces.

Em face de toda esta produção, não verberei por aí além os seus autores, porquanto verificava que tal era então habitual, mesmo entre os que faziam profissão de filósofos. Uma coisa, no entanto, me espantava neles: o facto de cuidarem que as mentiras que escreviam passariam despercebidas.

E foi assim que também eu, por vanglória, resolvi deixar à posteridade qualquer coisa do género, só para não ser o único a não beneficiar da faculdade de contar histórias fantásticas. E já que não tinha nada de verídico para narrar (na realidade, não me tinha sucedido nada digno de registo), virei-me para a mentira, mas uma mentira mais desculpável que a daqueles, porquanto numa coisa serei eu verdadeiro: ao confessar que minto. Desta forma, i. é, declarando que não digo nem uma ponta de verdade, creio ficar absolvido da acusação que porventura me façam. Escrevo, pois, sobre coisas que não testemunhei nem experimentei, e que não soube da boca doutrem; mais ainda: que não existem em absoluto e que, de qualquer forma, não são susceptíveis de ocorrer. Portanto, não deve o leitor dar o mínimo crédito às minhas histórias.


(continua...)

terça-feira, junho 17, 2003


Este amor que vos tenho, limpo e puro
De pensamento vil nunca tocado,
Em minha tenra idade começado
Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

De haver nele mudança estou seguro,
Sem temer nenhum caso ou duro Fado,
Nem o supremo bem ou baixo estado,
Nem o tempo presente nem futuro.

A bonina e a flor asinha passa;
Tudo por terra o Inverno e Estio deita;
Só pera meu amor é sempre Maio.

Mas ver-vos pera mim, Senhora, escassa,
E que essa ingratidão tudo me enjeita,
Traz este meu amor sempre em desmaio.


Camões



Tanto de meu estado me acho incerto,
Que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Num'hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém, porque assi ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.


Camões

segunda-feira, junho 09, 2003


Super flumina Babylonis
illic sedimus et flevimus
cum recordaremur Sion
In salicibus in medio eius
suspendimus organa nostra
Quia illic interrogaverunt nos
qui captivos duxerunt nos verba cantionum
et qui abduxerunt nos hymnum
cantate nobis de canticis Sion
Quomodo cantabimus canticum Domini
in terra aliena ?
Si oblitus fuero tui Hierusalem
oblivioni detur dextera meã
Adhereat lingua mea faucibus meis
si non meminero tui
si non praeposuero Hierusalem
in principio laetitiae meae
memor esto Domine filiorum Edom diem Hierusalem
qui dicunt exinanite
exinanite usque ad fundamentum
in ea filia Babylonis misera
beatus qui retribuet tibi retributionem tuam
quam retribuisti nobis
beatus qui tenebit et adlidet
parvulos tuos ad petram

(Vulgata)

Junto aos rios de Babilónia,
ali nos sentamos e nos pusemos a chorar,
recordando-nos de Sião.
Ali, sob os salgueiros,
suspendemos as nossas harpas,
Pois era ali que nos pediam
os nossos carcereiros cânticos;
os nossos verdugos, alegria:
“Cantai-nos um dos cânticos de Sião.”
Mas como entoaremos o cântico
do Senhor em terra estrangeira?
Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém,
esqueça-se a minha destra da sua destreza.
Apegue-se-me a língua ao céu da boca,
se não me lembrar de ti,
se eu não preferir Jerusalém
à minha maior alegria.
Lembrai-vos, Senhor,
contra os filhos de Edom, no dia de Jerusalém,
quando gritavam: “Arrasai-a!”
Arrasai-a até os seus alicerces!
Ah! filha da Babilónia, devastadora;
feliz aquele que te retribuir
consoante nos fizeste a nós;
feliz aquele que agarrar e esmagar
os teus filhos contra uma rocha.

Salmo 137(136)
(trad. AC)

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá donde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza,
Com esforço e saber pedindo vão
Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Camões


SOBRE OS RIOS QUE VÃO

(SÔBOLOS RIOS QUE VÃO)

Sobre os rios que vão
por Babilónia m' achei
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val
que então se entende milhor
quando mais perdido for;
vi o bem suceder mal,
e o mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo,
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou,

assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: «Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.
Jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam;
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que, por vos ouvir, deixavam.

Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.

Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquedade
aqueles gostos passados.

Um gosto que hoje se alcança
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte
que quanto da vida passa
está receitando a morte!

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade...
Não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

Mas, em tristezas e enojos
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
terné presente á los ojos
por quien muero tan contento».
Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava;
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

Mas lembranças da afeição,
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então
que era da música minha
qu'eu cantava em Sião.
Que foi daquele cantar
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por antre o espesso arvoredo;
e de noite o temeroso,
cantando, refreia o medo.
Canta o preso docemente
os duros grilhões tocando;
canta o segador contente;
e o trabalhador, cantando,
o trabalho menos sente.

Eu, que estas cousas senti
n' alma, de mágoas tão cheia,
«Como dirá, respondi,
quem tão alheio está de si
doce canto em terra alheia?»
Como poderá cantar
quem en choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos enjeito.

Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.
Que, quando a muita graveza
de saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

Que, se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei já,
nem menos o escreverei;
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

Que, se vida tão pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porém se, para assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento,
d' alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

E se eu cantar quiser
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.
A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina
que voa da própria casa,
e sobe à pátria divina.

Não é logo a saudade
das terras onde naceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pôde alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da fermosura
que só se deve de amar.

Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos efeitos
que os corações têm sujeitos:
sofistas, que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

Destes o mando tirano
me obriga, com desatino,
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?

Tanto pode o benefício
da Graça que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me fez grau para a virtude.
E faz este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti!
Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal;
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.
E tomando já na mão
a lira santa e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão da paz.

Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir
se me vós não dais a mão.

No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles, que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão;
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

E aquele poder tão duro
dos efeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvídrio que tenho;
estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derrubar-me;

derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós,
nem sem Vós tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhoreia!
Beato só pode ser
quem co a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste;

quem com disciplina crua
se fere mais que üa vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne na alma fez;
e beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e, em nacendo, os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes;

quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível,
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia
que nem, por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.

Ali verá tão profundo
mistério na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, despois de a ti subir,
lá descanse eternamente.

Camões

sábado, junho 07, 2003


Vivamus mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis!
Soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus inuidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.


Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhar’s forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos olhe mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Catulo (Roma, Séc. I a.C.)
(trad. Jorge de Sena)


Tu ne quaesieris scire nefas quem mihi quem tibi
finem di dederint Leuconoe nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius quidquid erit pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Não questiones, nefasto é saber, quer para mim, quer para ti,
o fim que nos reservam os deuses, Leucónio, nem os babilónios
horóscopos consultes. Quão melhor o que quer que venha é sofrer,
sejam inúmeros os Invernos, seja este o último que Júpiter nos atribui,
e que agora, contra as falésias, debilita a força do mar
Tirreno! Sê sábio, filtra os vinhos e restringe a momento breve
a vasta esperança. Enquanto falamos, terá escapado o invejoso
tempo. Aproveita o dia e não confies em nada do que é futuro.

Horácio (Roma, Séc. I a.C.), Ode XI, Livro I
(trad. AC)

quinta-feira, junho 05, 2003


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu (braço,)
Num movimento
Mais de cansaço,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada
Mas numa estrada
Como é a vida
Há uma coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha de ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa



Ite, rime dolenti, al duro sasso,
che ’l mio caro tesoro in terra asconde;
ivi chiamate chi dal ciel risponde,
ben che ’l mortal sia in loco oscuro, e basso.
Ditele ch’i’ son già di viver lasso,
del navigar per queste orribil onde;
ma ricogliendo le sue sparte fronde,
dietro le vo pur cosí passo passo,
e sol di lei ragionando viva e morta,
anzi pur viva, et or fatta immortale,
a ciò che ’l mondo la conosca et ame.
Piacciale al mio passar esser accorta,
ch’è presso omai; siami a l’incontro, e quale
ella è nel cielo, a sé mi tiri e chiame.


Oh, vai, verso dolente, à pedra dura
Que o meu caro tesouro em terra esconde,
E chama quem do céu inda responde,
Se bem que o corpo esteja em tumba escura.

Diz-lhe que vivo exausto de amargura,
De navegar sem já saber por onde,
Salvando apenas sua esparsa fronde
De perder-se na morte que se apura,

Sempre arrazoando dela, viva e morta,
Como se viva e já feita imortal,
Para que o mundo a reconheça e ame.

E que lhe praza ser quem me conforta
No instante que se apressa. Venha e, qual
Está no céu, a si me leve e chame.


Petrarca
(trad. Jorge de Sena)

terça-feira, junho 03, 2003


SÁ DE MIRANDA CARNEIRO

comigo me desavim
eu não sou eu nem sou o outro
sou posto em todo perigo
sou qualquer coisa de intermédio
não posso viver comigo
pilar da ponte de tédio
não posso viver sem mim
que vai de mim para o Outro

Alexandre O’Neill



Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá Carneiro



Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse,
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda

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